CORRER É REENCONTRAR AS RAÍZES FAMILIARES

Por Rose Sassarao

Lembra de como você escolheu a última Marathon Major para pegar a Mandala?
Era a mais difícil de fazer a inscrição? A mais cara?
Ou a com Índice de corte por tempo?
Adiaram a prova por causa do COVID-19?
Ou foi o acaso mesmo?
Quando vi que tinha condições de concluir o desafio das Six/Seven/Eight (?) Marathon Majors não tive dúvidas sobre qual seria a última a correr.

Tinha que ser a Tokyo Marathon.
Cada um tem a sua inspiração e motivos para correr. Ou, melhor, aquela “desculpa”, meio esfarrapada, para dar quando perguntam: “Fez inscrição para mais uma Maratona? Você não cansa, não? Não é perigoso correr tanta Maratona assim? Vai cair a bunda e os peitos! Vai no Cardiologista, hein?! Mas você ganha a corrida? Só leva banana para casa?”.
Minha motivação é simples: Viajar para redescobrir a história da nossa família.
Como uma boa parte dos brasileiros, minhas origens são como as pizzas brasileiras: uma mistura de vários sabores. Saiu uma pizza Meia Japonesa, Meia Portuguesa e Italiana!
Completei as Six Marathon Majors na Tokyo Marathon, em Março de 2024. Levei no coração e dentro do bolso as fotos dos meus avós maternos e do meu tio/padrinho japoneses, aproveitando cada segundo do percurso na capital da Terra do Sol Nascente.
Super organizada, Tokyo Marathon é uma das poucas provas onde não passei perrengue para ir ao banheiro, porque há muitos e os voluntários organizam as filas. Se der um piriri  bravo no meio do caminho, não tenha medo! Alguém vai te ajudar!
Ir ao Japão hoje e imaginar que, entre 1935 e 1939, as famílias dos meus avós maternos deixaram tudo para trás, fugindo de guerras e das dificuldades económicas, fazendo uma viagem de um mês dentro de um maru/barco para chegar ao Brasil, é “viajar” no roteiro de novela, que mostra como tudo muda com a passagem do tempo.

Para completar a parte nipônica da história, meu tio e padrinho era relojoeiro dos bons, daqueles que consertavam os mais variados relógios de pulso e de mesa. Em sua casa, sempre tocavam alarmes, badaladas e cucos para avisar as horas do dia.
Meu primeiro relógio de pulso foi presente dele e da minha tia, a madrinha mais querida do mundo. Era um relógio Seiko, a marca do cronômetro da Tokyo Marathon.
Embora tivesse problemas graves de saúde, meu tio sempre manteve a vontade de viajar e aproveitar ao máximo a vida. Ele não fazia segredo da viagem que mais desejava fazer:  um grande tour pelo Japão. Infelizmente, sua saúde frágil não permitiu e ele se foi.
Nunca gostei de usar relógio de pulso, pois sentia o tempo a passar mais rápido, principalmente quando acontecia uma coisa muito boa, que acabava logo.
Entretanto, a corrida e o Garmin acabaram por me convencer do contrário: o tempo escapar pelas mãos velozmente, como a música “Tempos Modernos”, do Lulu Santos, é bom, ainda mais se você for queniano, etíope, etc., ou tiver um pace/ritmo mais baixo que 4 min/km.
E assim passou o incrível ano de 2024: Tokyo Marathon, onde completei as Six Majors, Marathon Pour Tous das Olimpíadas de Paris 2024, em Agosto, e fechei o ano participando do Age Groups World Championships, na Sydney Marathon, em Setembro.
Mas, e agora?

Voltei para casa e fiquei uns dias com aquela cara de Meme do Pablo Escobar, personagem interpretado pelo Wagner Moura, em “Narcos”: sem saber o que correr.
Qual seria a nova “Desculpa” para inscrever-me em outras corridas? A família, claro!
Após 25 anos de busca pelos documentos italianos dos meus bisavós paternos, concluímos o processo de Reconhecimento da Cidadania Italiana neste ano, 2025!
Também encontrei O ELO PERDIDO: os descendentes dos irmãos dos meus bisavós, que nunca deixaram a Itália, e vivem em Vicenza e Pádua, cidades próximas a Veneza.
Aí dá Samba! Burocracia toda resolvida é Hora de COMEMORAR!

Com uma bela desculpa para correr: fazer o GIRO d’ ITÁLIA em Meias-Maratonas!!!
Participei já de 4 (quatro) provas italianas de 21 kms: Verona, Milão, Roma e, a minha preferida, Veneza! O percurso mais belo da corrida mais maluca de todas!
Os italianos são loucos por velocidade e estão sempre no modo “Fast & Furious”.

As partidas são muito rápidas e nem sempre estão divididas por tempo. Mas os pacers locais são uns relojinhos. São muito experientes e aproximando-se deles é bem fácil concluir as Meias-Maratonas no tempo que planejar.

Entretanto, os monumentos, as paisagens e o pavimento de paralelepípedo nas áreas históricas, exigem concentração. Para quem é descoordenada, como eu, todo cuidado é pouco! É fácil distrair-se e tropeçar!

Em Veneza, há uma particularidade, a maré pode subir e invadir as ruas. É a Acqua Alta. Há anos em que são só pequenas poças d’água. Em outros, o nível vai até acima das canelas, principalmente junto a Praça San Marco, ponto alto da corrida.

Mas, se isso acontecer, ou o objetivo for concluir a prova, todas as Meias-Maratonas que corri até agora na Itália são perfeitos passeios turísticos.

Em Verona, a Arena e Romeu e Julieta. Milão com seu imponente Duomo, partida e chegada quentinhas junto a um galpão com um guarda-volumes digno de desfile de moda de grife. Em Veneza, montam uma ponte provisória só para os corredores cruzarem a mais bela avenida aquática do mundo: o Canal Grande. E, em Roma, a Chegada é junto ao Coliseu. Que chato!

Sinto-me muito feliz e privilegiada por poder reencontrar minhas raízes familiares fazendo o que mais gosto: correndo!

São quase 25 anos de corridas de rua, com saúde e um sorriso no rosto!

Agradeço, em especial ao meu médico, pois estou comemorando 14 anos bem de saúde, curada de um câncer do colo do útero.

E, claro, um grande obrigado aos meus treinadores da MPR, São Paulo! Tamo juntoooo!!

Desejo a todos muita saúde para desfrutar das muitas boas corridas da vida!

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