A Maratona da minha Vida
Por Sergio Ferreira dos Santos

Class Tokyo 2025
Toda maratona tem 42 quilômetros e 195 metros. E esse é o único ponto em comum entre elas. No mais, cada uma apresenta desafios e circunstâncias únicas. Tudo conta: falta ou excesso de treino, lesões, altimetria, temperatura, hidratação, psicológico, astral… No meu caso, a Maratona do Japão teve um desafio adicional. Foi a maratona da minha vida. E eu explico.
Outubro de 2024: após muita espera, finalmente fui sorteado para a Maratona de Tóquio. Só esta prova estava faltando para completar o circuito das Majors e conquistar a medalha Six Stars. É o sonho de todo maratonista. Para alguns é até mesmo uma obsessão. Para mim, os dois!
Inscrição feita, contagem regressiva. Faltavam pouco mais de quatro meses para a prova. Na prática, um tempo até justo para uma boa periodização de treinos. Mas, com as festas de fim de ano, tudo fica ainda mais corrido. Literalmente!
Sem tempo a perder, iniciei os treinos e aproveitei para fazer um check-up de rotina, como faço todos os anos. Além dos exames usuais de laboratório e imagem, meu médico solicitou um exame complementar: a angiotomografia. No protocolo de check-up já constam o ecocardiograma e o teste de esforço na esteira, mas a angiotomografia vai além e avalia as artérias coronárias, que irrigam o coração.
Apesar de totalmente assintomático e treinando para a maratona, o exame apontou a existência de duas estenoses (calcificações) que precisariam ser mais bem avaliadas. Sem tempo para assimilar bem tudo que estava me ocorrendo, poucos dias depois fui submetido a uma angioplastia. Recebi o implante de dois stents: um na artéria coronária direita e outro na artéria circunflexa (que passa por trás do coração).
Recuperado da anestesia, fui informado sobre a extensão e complexidade do procedimento a que fui submetido. Descobri que só não sentia nada porque minha condição de atleta amador gerou compensações, fortalecendo artérias periféricas. A orientação foi clara: evitar qualquer atividade física e descansar.
Mas como descansar se eu teria pela frente uma maratona em pouco menos de três meses?
Mal sabia eu que, dias depois, meu médico viria com a orientação de que eu desistisse da ideia de correr a maratona. Não há literatura médica que respalde uma recuperação acelerada. Seria muito arriscado.
Refleti por alguns dias e decidi seguir em frente, mesmo que fosse para completar a prova andando, dentro do tempo limite de sete horas. Comuniquei minha decisão ao meu médico (Dr. Marcelo Baboghluian), que sabiamente ponderou sobre os riscos, mas que não me abandonou. O mesmo aconteceu com o meu treinador (Marcos Paulos Reis – MPR). Juntos, eles definiram um plano de treinamento muito leve no início (basicamente caminhadas), depois intercalaram caminhadas com trotes e, por fim, com corridas em ritmo leve. Bem leve !
O foco foi manter a fisiologia da corrida centrada em frequência cardíaca baixa (máximo 80% da FCM), e com o mínimo de esforço. Tive que reaprender a treinar. Treinei assim por quase dois meses. E durante esse período, realizei diversos exames para avaliar minha condição cardíaca. Com bons resultados dos exames, e sempre seguindo a orientação médica e da MPR, fui progredindo, passando de treinos intermitentes (caminhar-correr) para sessões de corrida mais contínuas.
Graças ao suporte da família, dos amigos, do Dr. Marcelo e do Marcão, fui para Tóquio confiante de que conseguiria completar a prova e conquistar a tão sonhada Mandala Six Stars .
Completei a maratona com um tempo muito melhor do que imaginava que iria fazer (03:55:17). Tudo conspirou a meu favor: palavras de incentivo, apoio e as preces !Com resiliência e superação, concluí a Maratona da Minha Vida!

