Minha síndrome do impostor
By: Ricardo Van De Graaf Class Toquio 2025

Neste fim de semana eu completei os 42 km da SP City Marathon. Foi a minha oitava maratona, mas esta teve um sabor diferente. Não é fácil entender por que foi diferente. Mas vou tentar.
Eu corro há 23 anos. Minha primeira corrida foi um revezamento da Maratona Pão de Açúcar, lá em 2003. Desde então eu nunca parei. Fiz todo tipo de corrida: revezamento, trail, distâncias curtas como 5 e 10 km, e por aí vai. Mas foi em 2018 — 15 anos depois — que eu comecei a correr maratonas. Eu achava que os 42 km era algo para profissionais, para pessoas que se dedicavam ao esporte, não para corredores normais, que é como eu me vejo. Mas meu treinador da época “colocou pilha” e eu aceitei o desafio. E eu comecei com o pé esquerdo… No segundo treino eu torci o pé e tive uma fratura no tornozelo. Perguntei logo para o ortopedista: “Eu tenho uma maratona marcada para daqui a 5 meses. Vou fazer essa prova ou não?” A resposta foi a pior de todas: “Eu não acho que você vai fazer, mas também não garanto que você não consiga.” Eu encarei essa resposta como aquele “duvido” que todo moleque de 12 anos escuta do amigo e acaba fazendo sem pensar nas consequências. Treinei bastante para essa prova. Fiz coisas que não faria novamente (como fazer 21 km de treino 45 dias depois da lesão só para conseguir acompanhar os amigos nos treinos seguintes). Mas completei os 42 km em Porto Alegre e pude dizer que era um maratonista. Foi muito difícil, tanto a prova quanto o processo de treinamento. E isso deu o sabor que eu queria para essa conquista.
Depois disso eu resolvi encarar o desafio de completar todas as Major Marathons: Berlim, Londres, Chicago, Boston, Tóquio e NY. Berlim foi a minha melhor maratona, treinei para provas que não pude fazer durante a pandemia e fiz muitos amigos durante esse processo — que é exatamente a parte que mais valorizo nesse mundo das corridas. Conquistar a mandala das Majors é o grande objetivo de muitas pessoas no mundo da corrida, e é algo que podemos chamar de raro. Meu filho me perguntou quão raro é isso, e o Claude me ajudou a responder: só 1 em cada 352 mil pessoas no mundo consegue completar. E as pessoas no mundo da corrida encaram esse “selo” como algo notável. Vários colegas acham o máximo eu ter concluído as Majors. Mas a verdade é que eu nunca achei esse feito algo realmente grandioso. Primeiro porque o grande filtro para completar as Majors é financeiro, e não esportivo. Não é barato ir até cada um desses países para correr uma maratona, e menos barato ainda conseguir a inscrição para elas. E convenhamos que é muito mais saboroso treinar sabendo que você está indo para o Japão completar uma maratona do que treinar para uma prova que não tem o mesmo apelo.
E foi aí que nasceu a minha síndrome do impostor. As pessoas acham que esse meu feito é algo “Uau!”. Mas para mim o “Uau!” de verdade é para quem vai correr a maratona de Fortaleza, com vento, calor, sem uma torcida compatível com o feito. Ou para quem vai completar a maratona em São Paulo, depois de passar a semana trabalhando normalmente, sem descanso prévio adequado, em uma altimetria super complicada. Por mais que eu reconheça o meu próprio feito, tenho uma admiração ainda maior por quem completa provas tecnicamente difíceis, sem nenhum glamour, e encara isso com naturalidade. Na verdade, para mim, a primeira maratona depois de uma lesão grave foi um feito muito maior do que completar as 6 Majors.
E daí surgiu a ideia de completar os 42 km da SP City. Uma prova dura, sem o glamour das Majors, depois de ter passado 2 dias de pé em evento da XP. Mas, depois de uma sequência de provas, eu não queria o peso nas costas de treinar para mais uma maratona. Assim, me inscrevi para os 42 km e não contei para ninguém. Minha treinadora achava que eu ia correr a meia, e confesso que foi engraçado encontrar com ela no km 38 e ela me perguntar: “o que você tá fazendo aqui?” Achei super divertido encontrar 2 amigas durante a prova e responder a elas sobre qual seria a minha estratégia: “Se no km 18 eu achar que estou bem, faço os 42. Se não, paro nos 21.” A cara de susto delas foi super engraçada, e isso me divertiu durante alguns quilômetros da prova — quem é maratonista sabe que ter alguma distração durante as 4 horas de prova é bom demais. Foi difícil, como eu achava que deveria ser e como eu não tinha avisado minha treinadora, também não tinha me preparado adequadamente.
Eu sigo me sentindo um impostor? Aquele que não merece o que conquistou? Ainda não sei… Às vezes acho que dou mais valor ao processo do que ao resultado. Se for isso, tudo bem! Porque isso é o que vai me fazer seguir correndo. E se tem uma coisa de que eu me orgulho, é de estar correndo há 23 anos sem parar. Mais orgulho do meu processo do que dos meus resultados.
E que venham os próximos 23 anos!

